Dança dos marqueteiros em Goiás terá pouca influência nesta eleição
Poucas vezes uma eleição para o governo de Goiás parece tão pouco suscetível de ser influenciada pelo marketing. Pelo andar da carruagem, a praticamente 80 dias da data das urnas, nenhum dos candidatos colocados até agora – Daniel Vilela (MDB), Marconi Perillo (PSDB), Wilder Morais (PL), Luis Cesar Bueno (PT) e Telêmaco Brandão (Novo) – promoveu ainda qualquer ação significativa para atrair atenção especial ou intensificar o engajamento com as suas postagens nas redes sociais. Se haverá novidades, vão ficar para a última hora.

Daniel Vilela, o favorito, desfrutando do 1º lugar isolado, 20 pontos à frente de Marconi Perillo e acima de 30 pontos além de Wilder Morais, sem falar na longa distância em relação a Luis Cear e Telêmaco Brandão, é o beneficiário único de algum processo de visibilidade, a partir dos efeitos positivos e automáticos que garantem continuamente ampla exposição para a sua condição de governador. Em 75 dias como titular do Palácio das Emeraldas, ele encabeçou uma agenda intensa de entregas de benefícios, lançamentos e inaugurações de obras, além da apresentação de projetos inovadores para reforçar a Segurança Pública (como a introdução da Inteligência Artificial nas investigações policiais), legado maior do seu antecessor e ex-governador Ronaldo Caiado, e a Saúde, basicamente. Até um novo Hugo será implantado, em tempo recorde, sem falar na ampliação do CORA para socorrer pacientes adultos.
Pelo simbolismo marcante das iniciativas, tudo isso esvaziou as críticas da oposição. E dentro de uma estratégia que se pode classificar como natural, sem artificialismo publicitário, somente apelando para os canais convencionais de mídia ou divulgação. Não à toa, não se sabe com exatidão nem o nome do marqueteiro ou da possível agência que atenderá a campanha de Daniel Vilela. Provavelmente, os baianos que resolveram com sucesso as 2 campanhas vitoriosas de Caiado, quase que anonimamente, com o auxílio de discretas equipes locais. E muito já se avançou: Daniel consolidou a jato uma marca própria, com o mote da continuidade impulsionado pelo acréscimo da inovação. O desafio da oposição será a tentativa de desviar esse foco que já impregnou as intenções de voto em Goiás. Na reserva, o atual governador tem guardado para os programas no horário gratuito no rádio e na televisão – cuja maior fatia será dele – um trunfo poderoso: as aparições recorrentes de Caiado para lembrar que o escolheu como sucessor por considerá-lo o preparado para preservar as conquistas das suas gestões.
Daniel Vilela conta com roteiro tranquilo e já pré-definido até as urnas, portanto. Seus adversários – Marconi e Wilder, principalmente – buscaram soluções baratas, arrebanhando profissionais de porte médio do mercado nacional de marketing. O ex-governador tucano contratou Lula Guimarães, que alega ter participado das campanhas de João Dória em São Paulo, para prefeito e governador, triunfantes, como se sabe. Marconi é ligadíssimo a Dória, hoje afastado da política e restrito ao mundo dos negócios. Mas, em jornadas presidenciais, o marqueteiro alinhou uma coleção de derrotas: Geraldo Alckmin a presidente, em 2018 (4º lugar). Eduardo Campos (PSB), em 2014, que morreu antes da disputa e depois Marina Silva (PSB), em 2014, outro fiasco.
Para fechar com Lula Guimarães, Marconi dispensou Marcelo Vitorino, que chegou a ensaiar um planejamento eleitoral para o seu cliente, mas não agradou e foi dispensado. Na primeira esquina, o demitido foi arregimentado por Wilder Morais. Wilder e Marcelo tornaram-se amigos durante a campanha frustrada do Professor Alcides para a prefeitura de Aparecida, em 2024. Vitorino trabalhou com Alcides por algum tempo, mas desistiu diante das dificuldades para convencer o candidato a se comportar de forma agradável e aceitável para o eleitorado aparecidense. É ele, Marcelo Vitorino, quem chefiará o proselitismo de Wilder. Ambos – Vitorino e Lula Guimarães – são considerados expoentes de um modelo de abordagem sem excentricidades ou reviravoltas, trilhando uma espécie de linha feijão com arroz para vender os candidatos que orientam – o que costuma gerar angústia e crise em campanhas que não decolam.
LEIA TAMBÉM
Os equívocos que derrotam por antecipação Marconi e Wilder (e Luis Cesar pior ainda)
Os 3 principais indicativos das pesquisas sobre as eleições em Goiás, até agora
Foco da eleição em Goiás é a continuidade: oposição ainda não conseguiu propor outro tema
Vem na sequência Luis Cesar Bueno. Mal estabilizado como candidato, ele provavelmente cairá nas mãos de Jorcelino Braga, que assessorou Adriana Accorsi na fracassada corrida pela prefeitura de Goiânia em 2024 – quando ela foi do 1º para o 3º lugar em 45 dias de rádio e televisão. Braga mudou as cores do PT e apostou na releitura do emblemático número do partido, o 13, substituído pelo “1 + 3” em um esforço para contornar o antipetismo e o antilulismo das goianienses e dos goianienses. Pelo superficialismo e infantilidade do recurso, não deu certo e uma Adriana com a identidade perdida acabou fora do 2º turno, diante da virada espetacular por Sandro Mabel com o apoio rasgado de Caiado.
Resumo da ópera: sem lances ousados, como a contratação de grandes e conhecidas feras do marketing brasileiro, de resto caríssimas e sem certezas de resultados, a campanha em Goiás tende a se concentrar no posicionamento, qualificação e projetos representados por cada pretendente. Isso pode até ser positivo, trazendo um debate mais autêntico e permitindo uma tabela de comparação entre nomes e propostas, com menos falsificações e empulhações puramente mercadológicas. Os candidatos provavelmente se mostrarão como são, talvez apenas ligeiramente embrulhados com artifícios para melhorar a empatia e a identificação com a população. É uma esperança porque, de fato, deveriam seguir por aí. Fugir desse caminho pode pegar mal diante da fadiga da sociedade com os políticos.