Informações, análises e comentários do jornalista
José Luiz Bittencourt sobre política, cultura e economia

06 jun

Juntos pelo Araguaia é um programa meramente conceitual, sem fontes de recursos, com previsão de investimentos de R$ 500 milhões (R$ 200 milhões do governo de Goiás) que simplesmente não existem

É impressionante a falta de responsabilidade dos envolvidos no programa Juntos pelo Araguaia, que mais se parece uma promoção marqueteira destinada a melhorar a imagem do agronegócio – aliás, tema principal, e não o meio ambiente, de todos os discursos de presidente, governadores e ministros presentes na festa de lançamento, nesta quarta-feira, às margens do próprio rio. Todas essas autoridades encenaram uma fantasia, já que o Juntos pelo Araguaia não tem definidas fontes de recursos, nem sequer para um tostão que possa ser aplicado na recuperação das áreas que deveriam ter sido preservadas no passada, mas estão violentamente degradadas ao longo do curso d’água.

 

A secretária de Meio Ambiente de Mato Grosso Maureen Lazzaretti, falando no evento, pelo menos foi sincera. Segundo O Popular, ela admitiu que “o programa é conceitual e não tem ainda nenhuma definição sobre quem o formulará e o executará”. Seriam necessários R$ 500 milhões de reais para custear as obras de recuperação da cobertura vegetal danificada em 19 mil hectares e a remoção de 200 mil toneladas de sedimentos depositadas a cada quilômetro do rio. Esse dinheiro caberia ao governo federal (R$ 100 milhões), ao governo de Goiás (R$ 200 milhões) e ao governo do Mato Grosso (R$ 200 milhões), só que nenhum desses três entes públicos tem qualquer centavo disponível para essa finalidade. De acordo com a secretária matogrossense, será tentada a ajuda das empresas do agronegócio do Estado. No caso de Goiás, a secretária do Meio Ambiente Andrea Vulcanis não faz a menor ideia de onde os R$ 200 milhões poderiam vir, conforme revelou a O Popular. Talvez visitar embaixadas, em Brasília, para conseguir doações, molemente acrescentou. Para piorar o que já estava ruim, ela disse ainda  que “nós como governo temos muitas dificuldades para executar o processo”, repetindo a secretária do Mato Grosso. O processo, no caso, é o próprio programa Juntos pelo Araguaia.

 

Quer dizer: além de não contar com qualquer verba, o Juntos pelo Araguaia, inacreditavelmente, não tem um órgão ou um conjunto de órgãos para cuidar da sua implantação. Não há um agente para comandar a operação, se houvesse alguma. É uma ficção, nada além de uma também malfeita declaração de boas intenções, das quais, como se diz, os cemitérios estão repletos. Caiado, no discurso que fez na solenidade de lançamento, em Aragarças, mostrou que não sabia do que estava falando. Não tinha qualquer noção do que é e quanto custaria o programa. Bolsonaro, por sua vez, tocou no programa rapidamente, como um gato caminhando sobre brasas. Gastou todo o falatório discorrendo sobre a cansativa pauta de costumes, o caso Neymar e e repetindo chavões como a missão divina do agronegócio de colocar alimentos na mesa dos brasileiros, entremeando essas pérolas com erros cabeludos de concordância verbal. Um desastre turbinado por uma enxurrada de leviandades. Com esse tipo de atenção, coitado do rio Araguaia…