Informações, análises e comentários do jornalista
José Luiz Bittencourt sobre política, cultura e economia

22 jan

Pagar o mês corrido (janeiro), deixando o anterior para trás (dezembro), é contribuição inovadora de Goiás para a história da administração pública – isso nunca foi feito antes nos municípios, Estados ou União

O governador Ronaldo Caiado já tem, em seu início de mandato, pelo menos uma contribuição muito inovadora para a história da administração pública no Brasil: está pagando para o funcionalismo, antes do vencimento, o mês que está em andamento, ou seja, janeiro, deixando para trás uma parte significativa, correspondente a mais ou menos R$ 700 milhões, da folha de pessoal do mês anterior, dezembro.

 

A leitora e o leitor podem vasculhar a memória, pesquisar no Google ou buscar informações em qualquer lugar, qualquer um mesmo. Não há precedentes para a atitude de Caiado e é possível que não haja notícia de nada parecido nem em empresas privadas. Ninguém nunca ouviu falar que um mês é pago, deixando-se o anterior em aberto. O normal, o aceitável, quando há algum atraso, é pagar o antigo e depois acertar o atual.

 

Um exercício de lógica, por mínimo que seja, aponta para o que seria correto e sensato: quitar a folha de dezembro e seguir em frente, pagando janeiro quando possível, depois fevereiro, depois março e assim por diante. Caiado trocou os sinais, liberando primeiro a folha de janeiro, aliás batendo um recorde porque o Estado nunca o fez a partir do dia 20, embora, em alguns governos de Marconi Perillo o tenha feito por volta do dia 30. Para turvar ainda mais o quadro, o governador insiste em dizer que não tem data ou que não sabe quando vai liquidar dezembro, que, ao que tudo indica, vai ficar como um quisto aberto até não se imagina quando na cronologia dos pagamentos do pessoal do Estado.

 

Caiado, como se sabe, alega que cometeria crime se pagasse dezembro, porque o governo passado não empenhou a totalidade da folha. O argumento não colou. Posteriormente, ele alegou que não há dinheiro, mas, como resolveu pagar janeiro em condições excepcionais para os servidores, antes mesmo de vencido o mês, a desculpa também caiu por terra. E tudo isso temperado por um decreto de calamidade financeira, sem acompanhamento de nenhuma medida de economia ou racionalização de gastos. Estamos, na verdade, vivendo dias estranhos em Goiás.