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José Luiz Bittencourt sobre política, cultura e economia

05 fev

O que começou como movimento para “zerar” a Assembleia deixou isso para trás com a eleição de Lissauer e admite até a continuidade da influência de Marconi para focar na oposição a Caiado

No início, um grupo de deputados se juntou sob a defesa da necessidade de “zerar” a Assembleia, afastando a influência do ex-governador Marconi Perillo e de seus aliados ex-presidentes que mantinham o controle de diretorias, contratos e nomeações de funcionários comissionados. Essa ideia se alastrou e logo tinha o apoio de 11 deputados. A eles se juntaram, em seguida, mais 13, especialmente a partir da desastrosa visita do governador Ronaldo Caiado ao Legislativo, para debater a calamidade financeira do Estado, quando tratou com desprezo alguns parlamentares. Esse foi o ponto de inflexão que marcou a queda da candidatura do peito de Caiado, a de Álvaro Guimarães, reunindo 24 deputados, depois 27, depois 32 e finalmente, no plenário, somando 37 votos para eleger Lissauer Vieira aí não mais para “zerar” a Assembleia, mas como manifestação de um desejo de independência face ao Executivo – que, na verdade, vai mais longe e se configura como uma espécie de vontade de “interferência” no governo, principalmente através de indicações para nomeações.

 

Em resumo, foi o que levou à eleição de Lissauer Vieira, até então membro destacado do baixo clero, com nenhuma liderança entre os colegas e atuação política apagada. São debilidades que acabaram se revelando como a força necessária para torná-lo aceitável para a presidência, sem representar um risco para os colegas. Eleito, o novo chefe do Poder enterrou rapidamente a conversa sobre “zerar” a Casa, substituída por um nascente sentimento de vingança, ou seja, de dar o troco a Caiado – em resposta ao seu estilo imperial de governar e ao desprezo que dedicou não só aos deputados, mas a toda a classe política, que não foi ouvida nem chamada para ocupar espaços na gestão e ainda publicamente humilhada com a “importação” maciça de secretários de fora do Estado.

 

Quem conversa com Lissauer Vieira ou escuta e assiste às suas entrevistas leva um susto com o amontoado de recados e advertências para Caiado. Da mesma forma, deputados vinculados a Marconi não escondem o clima de comemoração com o novo quadro que surgiu na Assembleia. Não há como duvidar de que as dificuldades a serem colocadas para o governo serão imensa e o primeiro embate já está marcado: será a apreciação da segunda etapa da reforma administrativa, cujo projeto ainda não está concluído pelos técnicos do Palácio das Esmeraldas. Como predadores, muitos dos deputados, talvez a maioria, estão à espera da presa para um bote direto na garganta. A temporada de caça será aberta com a chegada do projeto da reforma.