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José Luiz Bittencourt sobre política, cultura e economia

21 fev

Duas injustiças – e grandes – tiraram de Benedito Torres a chefia do Ministério Público que ele conquistou nas urnas: ser irmão de Demóstenes e a ligação (falsa) que teria com Marconi

Eleito em 1º lugar na na lista tríplice para a escolha do novo procurador-geral de Justiça com a maioria dos votos (266) dos quase 400 procuradores e procuradores que compõem o Ministério Público Estadual, Benedito Torres acabou perdendo o posto em razão de duas injustiças – e grandes: o fato de ser irmão de um desafeto do governador Ronaldo Caiado, no caso o também procurador e ex-senador Demóstenes Torres, e a acusação de que teria ligações com o ex-governador Marconi Perillo, outro desafeiçoado do novo governador.

 

Caiado escolheu para chefiar o MP estadual o procurador Ailton Vechi, que se classificou em 3º lugar na lista tríplice com apenas 142 votos. Não há nada de ilegal ou irregular na decisão, que é prerrogativa do chefe do Executivo – e é para isso mesmo que a instituição elege três nomes, dentre os quais um será o ungido pelo Palácio das Esmeraldas, sem qualquer relação com o número de sufrágios que obteve entre os colegas.

 

Benedito Torres pagou por um pecado original, ou seja, seus laços familiares com Demóstenes Torres. Este e Caiado são inimigos viscerais. O governador até pensou em superar o óbice pessoal e dar uma demonstração de magnanimidade, além de sinalizar com a convicção de que a sua será uma administração limpa e sem nada a temer. Mas aí entraram as pressões da sua própria família, em especial da filha e advogada Anna Vitória, cuja influência na gestão pode ser comparada com a dos filhos do presidente Jair Bolsonaro. Foi ela quem acrescentou mais um filtro para queimar Benedito Torres: o de que, sob o seu comando, o MP teria poupado os governos passados, a partir de um suposto elo entre o então procurador-chefe (que teve três mandatos durante o Tempo Novo)  e o ex-governador Marconi Perillo.

 

Isso é falso como uma nota de R$ 3 reais. O Ministério Público Estadual, com ou sem Benedito na sua liderança, sempre fustigou Marconi impiedosamente, em especial propondo ações sobre o tema da responsabilidade fiscal, caro a Caiado. O Tribunal de Contas do Estado foi, sim, complacente com os governos passados. O MP estadual, jamais. Marconi, hoje, é réu em mais de uma dezena de ações propostas pelo parquet, envolvendo o descumprimento de vinculações constitucionais, a concessão de incentivos fiscais indevidos e outras estrepolias financeiras e administrativas.

 

Benedito Torres foi um procurador-geral de Justiça correto, cordato e isento, que atravessou crises sem macular o seu currículo, cumpriu o seu dever profissional e manteve um bom relacionamento institucional com os Poderes, as autoridades e, no limite, as próprias pessoas. Foi vítima, agora, de uma visão caolha. Porém, será uma presença que continuará marcante dentro do Ministério Público Estadual.