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José Luiz Bittencourt sobre política, cultura e economia

26 fev

No poder, pela primeira vez em sua vida, Caiado desaperta parafusos da sua armadura moral ao conviver com personagens e considerar uso de laranjas como “coisa boba”

Uma das regras mais consagradas dos manuais de política reza que, no exercício do poder, o mais importante é o pragmatismo, já que não haveria como governar sem fazer concessões e sem flexibilizar convicções.

 

É o que está experimentando, hoje, o governador Ronaldo Caiado. Em apenas dois meses de mandato, acumulam-se evidências de que o seu antigo rigor em matéria de princípios passa, no mínimo, por um realinhamento. Não que tenha sido abandonado. Porém, afrouxou. Vejam, leitora e leitor, que Caiado convive com auxiliares, digamos assim, enrolados, como o secretário de Governo Ernesto Roller, em quem o Ministério Público aponta indícios de envolvimento com irregularidades na prefeitura de Formosa, ou como o presidente da Agehab, Eurípedes José do Carmo, alvo de quatro processos por improbidade administrativa na prefeitura de Bela Vista, um dos quais, significativamente, por desvios… na construção de casas populares. E ainda o seu líder na Assembleia, o deputado Bruno Peixoto, cuja família está no centro de um escândalo na prefeitura de Goiânia.

 

São brechas de médio e pequeno tamanho que vão se abrindo em uma biografia marcada pela intransigência diante de malfeitorias, mesmo quando havia dúvidas sobre culpas e culpados. E vão aparecendo mais. O escândalo dos laranjas do PSL que derrubou um ministro e ameaça outro foi definido por Caiado como “coisa boba”, que não mereceria atenção que recebe da mídia. A intenção, aqui, é óbvia: o governador maneja a sua autoridade para aliviar e adular o governo federal, na vã esperança de criar um clima favorável à ajuda que sonha para superar as dificuldades financeiras do Estado. Tanto que as declarações foram dadas a um site jornalístico nacional.

 

Para usar um termo da predileção de Caiado, alguns dos parafusos antes rigidamente arrochados da sua armadura moral agora parecem desapertados.