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José Luiz Bittencourt sobre política, cultura e economia

26 mar

Hino de Goiás, que Caiado decretou obrigatório nas escolas estaduais, é de difícil compreensão, parece chorinho ou frevo e exalta a malandragem do Anhanguera, para muitos um exterminador de índios

“Eles eram bárbaros e sanguinários. Matavam velhos e crianças e escravizavam por dinheiro. À força, conquistaram o Brasil, que, sem os bandeirantes, terminaria em São Paulo. Os grandes perdedores foram os índios. Nas tribos atacadas, não ficava palha sobre palha. Muitos territórios viraram desertos humanos, ocupados, depois, por súditos portugueses”.

 

É assim que os modernos livros de história descrevem os bandeirantes. Um deles, Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera, ficou imortalizado na história de Goiás como nenhum outro dos seus pares no resto do país, com direito a estátua na principal praça da capital e seu nome espalhado por obras públicas e estabelecimentos comerciais. E ainda ganhou o direito de protagonizar o hino oficial do Estado, com os seus feitos exaltados em versos que, agora, por decreto do governador Ronaldo Caiado, os 450 a 500 mil alunos das 1.150 escolas da rede estadual estão infelizmente obrigados a decorar.

 

Hinos nacionais ou estaduais são peças musicais de louvação que correspondem a um momento histórico. No mais das vezes, tornam-se ultrapassados pela evolução da sociedade e a atualização dos seus paradigmas. Na sua primeira versão, que durou quase 100 anos, o de Goiás apresentava o Anhanguera como um herói “audacioso” e “atrevido”. Em 2001, o então governador Marconi Perillo resolveu revogá-lo, substituindo-o por um novinho em folha, que amenizou o papel do Diabo Velho – já naquela época começando a ser questionado diante do seu verdadeiro papel predatório nas origens do Estado. Mesmo assim, ele continuou merecendo alguns versos na nova interpretação, porém mostrado como um desbravador malicioso, que fundou Goiás a partir de um lance de malandragem e aí não mais matou ou exterminou, mas enganou os índios goyases para abrir espaço para a “civilização”.

 

O decreto de Caiado é um equívoco sem tamanho. A pretexto de estimular a cidadania, obriga os estudantes a ouvir uma vez por semana o tal hino, senão a também cantá-lo, entoando sua letra quase incompreensível e pontuando seu ritmo de chorinho ou frevo, composição do maestro Joaquim Jayme, já falecido, em um momento de pouca inspiração. Não há mensagem alguma. Uma gravação novinha em folha foi encomendada, com o governador em pessoa no meio do coral de jovens escolhidos para a récita(vejam acima, leitora e leitor, parece até um quadro de Tarsila do Amaral). Uma cópia será remetida a cada escola estadual, onde deverá ser reproduzida no mínimo uma vez por semana. Farão bem os diretores e professores se ignorarem o decreto, livrando suas classes de um sacrifício sem sentido nos dias de hoje. Cidadania se cria com conscientização e não com repetição obrigatória de frases ininteligíveis.