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José Luiz Bittencourt sobre política, cultura e economia

28 mar

Caiado não apoiou Bolsonaro no 1º turno, nunca foi amigo dele e agora apareceu no Palácio do Planalto para dar conselhos que não segue, em Goiás, na base do “faça o que eu falo, não o que eu faço”

O governador Ronaldo Caiado tem se esforçado, desde que foi eleito, há seis meses, para vender uma imagem de proximidade com o presidente Jair Bolsonaro – que, na verdade, é inexistente. Caiado, apesar de sucessivos mandatos na Câmara Federal ao mesmo tempo que Bolsonaro, nunca manteve qualquer amizade com ele e tanto que, no 1º turno, fez campanha para governador sem se definir por nenhum candidato na eleição presidencial. Somente no 2º turno, que começou com a fatura praticamente liquidada, trazendo o capitão quase 20 pontos à frente do seu adversário Fernando Haddad, é que o DEM de Goiás e seu líder máximo se posicionaram a favor de quem já se tinha a certeza de que ganharia a eleição

 

Governadores, como se sabe, fazem o possível para se aproximar do presidente da República, seja quem for ou de qual partido for. Marconi Perillo, por exemplo, teve excelente convivência com Dilma Rousseff, festejada como nunca em suas passagens pelo Estado. Por trás, está a necessidade de obter simpatia para eventuais ajudas federais. É o caso do atual governador goiano, que, uma dia após ser eleito, já saiu a campo atrás de apoio financeiro de Brasília – que até hoje não saiu e só por um milagre sairá algum dia.

 

Sob o manto da tal amizade com o presidente, Caiado esteve no Palácio do Planalto, nesta semana, para uma audiência em que, segundo se noticiou, levou conselhos e orientações. Dois deles, uma sugestão para que Bolsonaro intensifique viagens pelo país afora, para se aproximar dos cidadãos, e outra para que abra espaço em sua agenda para receber congressistas, o próprio governador não segue em Goiás. É fato: Caiado não recebe deputados, não telefona, não responde mensagens de WhatsApp e não se interessa, enfim, por qualquer tipo de diálogo com os membros da Assembleia e da bancada federal. Isso compete ao secretário de Governo Ernesto Roller, que se esforça, mas não consegue suprir o vácuo aberto – os parlamentares, ciosos da sua importância, querem a atenção de Caiado e não de seus prepostos. O resultado é que o governo, aos completar três meses, ainda não tem uma base de apoio confiável no Legislativo goiano, a exemplo de Bolsonaro no Congresso Nacional.

 

Quanto a viagens, Caiado até que tem uma agenda, não muito intensa, nos municípios. Mas, atenção: ele vai preferencialmente  a cidades administradas por prefeitos do DEM, como Santa Terezinha ou Ouro Verde, que não têm nenhuma expressão econômica ou populacional. Depois de vencer nas urnas, o governador nunca mais pisou em Luziânia, Aparecida ou Anápolis, que estão entre os 10 maiores municípios do Estado, administradas por prefeitos que não o apoiaram. Mas esteve em Catalão por duas vezes, para prestigiar o prefeito emedebista Adib Elias, um dos baluartes da sua eleição.

 

Os conselhos de Caiado a Bolsonaro foram, assim, na base do “faça o que eu falo, não o que eu faço”. Caiado, apesar da sua história política, faz a gestão do Estado como tal qual o presidente faz a do país: longe dos políticos e perto da família e de figuras estranhas aos processos de poder regional e nacional.