Informações, análises e comentários do jornalista
José Luiz Bittencourt sobre política, cultura e economia

06 nov

Polêmica da extinção da PM: nem desembargadores nem jornalistas estão acima do bem e do mal

Foi um barulhão: um desembargador recém alçado ao cargo resolveu, em meio ao julgamento de um caso objetivo, apresentar uma “reflexão pessoal” propondo a extinção da Polícia Militar, além de insinuar, sem nenhuma prova, que integrantes da tropa cometem “abusos e excessos” no cumprimento das suas obrigações. Aliás, citou, sim, o que seria uma “prova”, na sua “opinião pessoal”: em confrontos com bandidos, esses morrem às pencas, enquanto os policiais sequer sairiam feridos.

De pronto, três equívocos graves, a saber: 1) um julgamento não é o lugar adequado para a exposição de “reflexões pessoais” de juízes; 2) para acusar a PM de praticar delitos e desobedecer a lei na execução das suas responsabilidades, seria indispensável acompanhar a denúncia de algum tipo de comprovação; e 3) em Goiás, soldados e oficiais da Polícia Militar morrem eventualmente no enfrentamento com o crime ou saem feridos com frequência. É fato também que existe uma Corregedoria que é rigorosa e promove anualmente centenas de investigações, muitas vezes com punições. E a morte de bandidos, em maior número que a de agentes de segurança, decorre do maior preparo e melhor equipamento desses últimos, coisa óbvia em qualquer parte do mundo. Não serve para automaticamente demonstrar os malfeitos da polícia.,

 

LEIA TAMBÉM

Desembargador só deveria falar como se pronuncia em um julgamento: baseado em provas

Goiás como exceção na crise nacional de segurança pública projeta Caiado

Os 2 recuos do desembargador que foi mal ao defender a extinção da PM

 

É preciso registrar: o desembargador fez a sua parte ao reconhecer com pressa e rapidez que “não andou bem” com a sua “reflexão pessoal” e se desculpar, depois de ser isolado pelo Tribunal de Justiça – que se posicionou reiterando sua confiança e seu reconhecimento à Polícia Militar – e até pela entidade corporativista da magistratura, a Asmego, que permaneceu em silêncio olímpico e não desagravou o juiz. Nesse ponto, entra a questão do jornalismo, melhor, do mau jornalismo. A cobertura que O Popular deu ao episódio foi tendenciosa, com uma sequência inaceitável de matérias enviesadas e distorcidas que as leitoras e os leitores acompanharam certamente estarrecidos com o jornal da família Câmara. Senão vejamos: 1) a “reflexão pessoal” inoportuna e absurda do desembargador foi minimizada como “críticas”, já a reação provocada foi hipertrofiada como “ataques” a ele, inclusive, quanto ao imediato repúdio manifestado pelo governador Ronaldo Caiado, absurdamente rotulado como “afronta”; 2) um dos títulos afirma que “colegas no julgamento também apontaram atuação indevida da PM”, sugerindo maldosamente que a condenação moral da instituição militar, seus supostos desvios e a sua extinção foi compartilhada por outros desembargadores, o que não houve de forma alguma, já que os demais magistrados escalados para o julgamento apenas se reportaram a um caso concreto de abordagem policial em exame e nem de longe arranharam os temas que deflagraram a polêmica: e 3) entrou na estória até uma estapafúrdia “nota de solidariedade” de uma tal Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo à jornalista que assinou as resenhas, incorretamente situando como “ataques” as reações críticas dentro da liberdade de expressão e apenas normais  que as reportagens receberam. Críticas, repetindo, não “ataques”. E críticas justas, não ofensivas, diante do despautério do que viu nas páginas de O Popular. Jornalistas e veículos, como se sabe, assim como desembargadores, não estão acima das avaliações sobre o que fazem, embora tenham mais apreço por criticar e não por serem criticados.

Mas, na verdade, não houve nada de “investigativo” no que O Popular publicou. Nada além da compilação dos vídeos do desembargador, do governador, do julgamento e de cópias das postagens nas redes sociais daqueles que defenderam a PM. Nenhum fato novo foi acrescentado. Prevaleceu o jogo de palavras depreciativas e interpretações negativas. Convenientemente, traçou-se uma linha divisória para separar o que houve e os envolvidos em lados diferentes, do bem e do mal. A esdrúxula “reflexão pessoal” do desembargador e a despropositada abordagem do jornal foram enfiadas na marra na primeira categoria, a do bem. Caiado, a Polícia Militar e seus oficiais e órgãos representativos mais a sua ação cotidiana de busca da segurança da população, aí estaria o mal, segundo O Popular. Atacaram, afrontaram, abusaram, cometeram excessos (a PM). Isso é infantil. Com uma anomalia a mais: os dois recuos do desembargador foram escondidos nos finais dos textos, quando, por uma exigência da hierarquia de importância dos temas, mereceriam no mínimo uma submanchete (ele chegou a valorizar as suas escusas chamando os membros da PM de “dignos” e de “merecedores de consideração e admiração”).

Quanto a nós, dormimos em paz à noite porque sabemos que há gente nas ruas velando pela nossa tranquilidade, como diria George Orwell, ele próprio policial por algum tempo e alguém que desconfiava da certeza redutora e simples de que “os oprimidos sempre têm razão, os opressores, jamais”, frase que pode ser adaptada para “criminosos” e “policiais” na visão de mundo autoritária do mais importante veículo de comunicação do Estado (embora muitas vezes não pareça ter consciência dos deveres que isso traz).