Representação parlamentar patina na mediocridade e não dá retorno para Goiás
Em pouco mais de 40 anos, a partir da redemocratização de 1982, saíram da Assembleia Legislativa e da bancada federal praticamente todos os políticos eleitos para governar Goiás. Primeiro, Iris Rezende – que, antes, havia chegado a presidente do Poder. Depois, Henrique Santillo, que além de deputado estadual também foi senador. Em seguida, Maguito Vilela, deputado estadual federal, depois Marconi Perillo, idem, sucedido por Alcides Rodrigues, deputado estadual e novamente Marconi Perillo. Ronaldo Caiado também veio de uma atuação brilhante no Parlamento, diante dos seus mais de 20 anos como deputado federal e senador. Mas, hoje, essa tradição parece a caminho do fim.

Começando pela Assembleia, que converteu-se em um Casa de mediocridades, em uma escalada de insignificância que culminou com a ascensão do eterno vereador Bruno Peixoto à sua chefia, em 2023. Da mesma forma, a bancada federal. Somando-se as 41 cadeiras do Legislativo federal com as 17 da Câmara dos Deputados e as três no Senado da República, o total chega a 61 políticos incrustados nos mais elevados e valorizados mandatos da representação popular do Estado. Todos, sem excluir qualquer um, pequenos. Quem é que seria capaz de apontar alguma contribuição de algum deles para um futuro melhor para Goiás e para as goianas e os goianos? Uma proposta minimamente interessante, um projeto realmente comprometido com a prosperidade coletiva? Nada vezes nada. É uma turma que só pensa no próprio umbigo e passa o tempo acumulando privilégios que os isolam dos cidadãos comuns e tem como objetivo apenas a própria perpetuação, cavalgando mordomias escandalosas (em especial na Assembleia), salários inflados por penduricalhos, e, mais do que qualquer outra coisa, a distribuição de emendas orçamentárias estaduais e federais – de olho na reeleição.

Atenção para esse último item, leitoras e leitores: emendas orçamentárias. Hoje, nas esferas estadual e federal, são centenas de milhões, destinados por deputados estaduais, deputados federais e senadores para os municípios das suas respectivas bases eleitorais. Geralmente, para a compra de caminhões, tratores, ambulâncias, ônibus e patrolas, zero obra de repercussão na vida das pessoas. É tanto dinheiro (nosso) para gastar à toa que acabou afetando o senso de responsabilidade pública e de dever institucional dos políticos eleitos para a Assembleia, a Câmara e o Senado. Todos “trabalham” para encher os seus prefeitos de verbas e garantir votos para a próxima eleição. Nenhum se vincula a qualquer bandeira social, qual seja a defesa dos direitos de segmentos da sociedade ou mesmo a conquista de benefícios civilizatórios para, digamos assim, o povo, ou linhas de opinião e pensamento setoriais.
CONFIRA
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Não é por acaso, portanto, que a antiga incubadora de grandes lideranças, ou seja, a carreira parlamentar, perdeu completamente esse papel inovador e acabou se transformando em um valhacouto de políticos que abrem mão da própria dignidade para se converter em paródia dos grandes nomes que Goiás já teve na sua frente legislativa, estadual ou federal. Onde estão os candidatos a governador? Na Assembleia, nem mesmo despontaram postulantes a deputado federal, a não ser o seu presidente – tristemente impulsionado pelo cabide de empregos do Poder. Do Senado, podem sair dois candidatos à reeleição – Vanderlan Cardoso e Jorge Kajuru – e um a governador, Wilder Morais. Os três, sem a menor noção da relevância das cadeiras que ocupam e sem compromisso e respeito pelas ilustres figuras que um dia nelas se sentaram.
Um Iris, um Santillo, um Maguito, um Marconi ou um Caiado podem acontecer de novo? Daniel Vilela foi deputado estadual, mas em 2011/2015, e deputado federal de 2015 a 2019. Entra, portanto, na linha aberta por Iris, Santillo, Maguito, Marconi e Caiado (e Alcides). É mais uma prova da capacidade perdida do núcleo parlamentar de gerar lideranças de amplitude social e política. Ah, dirão, tem o Wilder Morais, que é senador, no momento, e pré-candidato a governador. Sim, verdade. Dentre pouco acima de seis dezenas de parlamentares por Goiás, ele é um caso único. A exceção que confirma a regra. E será que Wilder vai mesmo disputar o Palácio das Esmeraldas, integrando um partido que hoje está louco para compor com Caiado e apoiar Daniel Vilela, em troca da destinação da 2ª vaga senatorial (a 1ª é da primeira-dama Gracinha Caiado) para a eleição segura do deputado Gustavo Gayer para o Senado(o que, de resto, atesta a incapacidade e a desimportância de Wilder).
A representação parlamentar em Goiás vive hoje a configuração de mais baixo nível de toda a sua história. Uma espécie de ganga bruta que, removida, continua revelando apenas cascalho impuro. Não há destaques nem na Assembleia nem na bancada federal, igualados no alinhamento de uma geração de nulidades dedicada apenas a aproveitar as suas regalias, despejando no lixo mandatos que foram criados constitucionalmente para cumprir missões e buscar o ideal de servir e conquistar dias melhores para todos e todas. “Todos e todas”, infelizmente, se resumem a eles mesmos, seus parentes, suas contas bancárias e um futuro tacanho… para si próprios.