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José Luiz Bittencourt sobre política, cultura e economia

09 mar

O que falta para Wilder ser um candidato a governador minimamente sério? Tudo

É um desafio e tanto esse que o homem de negócios e senador acidental Wilder Morais resolveu enfrentar: disputar o governo do Estado, um tipo de eleição na qual as goianas e os goianos nunca tiveram outro comportamento senão consagrar lideranças políticas de ampla acepção coletiva, social e até mesmo histórica. Quer dizer: aventureiros ou farsantes jamais foram referendados pelas urnas para o Palácio das Esmeraldas. E, infelizmente para Wilder, empresários igualmente não.

Nos últimos 40 anos, confiram, leitoras e leitores, o padrão dos governantes escolhidos pelo eleitorado estadual: Iris Rezende (2 vezes), Henrique Santillo, Maguito Vilela, Marconi Perillo (4 vezes) e Ronaldo Caiado (2 vezes). Alguém dirá que, no meio deles, encontrou abrigo um peixe miúdo como Alcides Rodrigues, o poste que Marconi escolheu para segurar a sua vaga entre 2007 e 2010. Mas, atenção, Cidinho tinha virtudes, a principal das quais a resistência ao assédio do MDB – quando, deputado estadual, foi o único do seu partido de então a não aderir ao sistema comandado por Iris Rezende. Além disso, foi prefeito de Santa Helena, também na oposição, e sempre exibiu conduta equilibrada e responsável. Mas o principal é que, em resumo, simbolizava uma sequência garantida para as gestões bem-avaliadas de Marconi naquela época. Não era, de jeito nenhum, um arrivista.

 

 

Goiás, portanto, nunca aceitou qualquer um no cargo de governador. E é justamente aí que as coisas se complicam para Wilder Morais. O que ele representa? Pergunta de difícil resposta. A ultradireita, o bolsonarismo, o antilulismo? Pode ser, mas isso não é justificativa para que alguém venha a se assentar no trono da Praça Cívica. Graças a essa bolha, ele tem chances de chegar a mais ou menos 20% dos votos ideológicos em outubro próximo (aliás, os mesmos que alcançou para o Senado em 2022), porém será preciso muito mais, na forma de ideias e propostas capazes de deixar claro que os avanços conquistados pela gestão do governador Ronaldo Caiado serão mantidos. Porque, inequivocamente, esse será o motor número um da decisão sobre quem assumirá a partir de janeiro de 2027 a cadeira de Caiado: a continuidade de Caiado, bandeira que pertence a Daniel Vilela, e não narrativas sobre visão de mundo.

 

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Em mais de 10 anos como senador, Wilder nunca fez um discurso, apresentou um projeto ou sequer fez uma declaração conectada a algo de verdadeiramente importante para Goiás. Seu desempenho na mais alta Câmara Legislativa do país é nulo e não serviu ao menos para defender o ex-presidente Jair Bolsonaro ou promover o bolsonarismo. Mesmo dentro do baixo clero do Congresso, ele ocupa a mais baixa e irrelevante camada. É um zero à esquerda, sentado onde, como dito, onde já se sentaram luminares como Pedro Ludovico, Mauro Borges, Henrique Santillo, Iris Rezende, Maguito Vilela, Marconi Perillo e Ronaldo Caiado. Por óbvio, o desnível é colossal.

Wilder tem um mandato senatorial nas mãos e, daí, domina em tese o melhor instrumento para provar que tem algum preparo e condição para a vida pública ou, de acordo com a sua ambição, para governar Goiás. Só que ele não sabe como usar ou fazer. Seu refrão repetitivo é o “nós, da direita”, em vez da apresentação de uma visão consistente de futuro para o Estado e para a sua população. Falta mostrar autonomia, capacidade para a gestão pública e propostas pragmáticas. Caso eleito, o que faria? Sete meses antes da data da votação, ele ainda não deu a menor pista, em um Estado considerado hoje muito bem administrado, como atestam os 88% de aprovação popular para o governo Caiado.

Finalizando: até aqui falamos da ausência de qualidades pessoais no agora candidato do PL. Politicamente, a situação é ainda pior. Uma fatia razoável do PL queria se compor com a base governista e apoiar Daniel Vilela, em troca de um palanque robusto para os candidatos proporcionais e de apoio ao deputado federal Gustavo Gayer como postulante ao Senado. Uma sigla dividida, em qualquer eleição, costuma ser fatal. Wilder também está isolado, pois não há nenhuma possibilidade de partidos para aliança com o PL para volumizar a sua a campanha. No horário gratuito de propaganda no rádio e na televisão, elemento decisivo, ele ficará confinado ao minuto e meio a que o PL tem direito, enquanto Daniel Vilela disporá de mais de seis minutos e o PT com seus associados da esquerda a dois minutos. Tudo isso contribui para um prognóstico por enquanto negativo, à espera de uma reação convincente de Wilder Morais.