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José Luiz Bittencourt sobre política, cultura e economia

10 fev

O exagero que compromete a defesa de Marconi

Uma medida de bom senso e moderação sempre reforça a credibilidade dos fatos. O ex-governador Marconi Perillo não levou em conta essa advertência ao afirmar, em vídeo publicado nas redes sociais, onde assumiu o papel de “influencer” tardio, ter recebido “centenas de milhares” de mensagens de solidariedade após a notícia da invasão de uma das suas casas, em Goiânia, com os agentes atrás de provas para a investigação sobre propinas recebidas de uma organização social gestora do Hugo na época dos seus governos.

“Centenas de milhares”? Rigorosamente falando, nem “centenas” seriam admissíveis: no vídeo postado no Instagram em que Marconi atribui o seu calvário a “perseguição” do governador Ronaldo Caiado, foram pouco mais de 2 mil curtidas e apenas 200 e poucos comentários, grande parte abordando vieses negativos para o ex-governador. Todo exagero coloca a na mesa a falta de credibilidade. Marconi deveria pensar melhor antes de abusar de números hiperbólicos, apresentando-se um pouco mais sóbrio e recatado. A menos que acredite, como o presidente Lula, que tudo o que diz tem o poder da infalibilidade e de verdade absoluta. Não é bem assim. Enquanto isso, um vídeo de Caiado falando sobre segurança, no mesmo Instagram, alcançou 14 mil likes e mais de quatro mil comentários.

 

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Muita gente próxima enxerga Marconi ainda revestido pelo poder que foi a constante durante 20 anos da sua carreira política (16 anos como senador, com um interregno de quatro como senador). Sim, naqueles tempos ele beirou a condição de semideus em Goiás. Subiu tão alto que o tombo foi espetacular. Em 2018, após uma sucessão de equívocos infantis, terminou em 5º lugar a eleição para o Senado. Mesmo assim, não abriu mão da velha húbris. Húbris? Sim, leitoras e leitores, é como os gregos antigos designavam a “arrogância funesta”, algo além da prudência e do equilíbrio, quando os heróis míticos despertavam a ira dos deuses. É um conceito simbólico. Que resume o comportamento do ex-governador e explica a sua afirmação sem pé nem cabeça a propósito de “centenas de milhares” de manifestações de apoio após as manchetes da Operação Panaceia, a cargo da Polícia Federal e da Controladoria Geral da União, devidamente autorizadas pela Justiça Federal.

O contrário de húbris, para os gregos, era a sofrósina, que pode ser traduzida como comedimento, autocontrole, prudência e sanidade moral. Humildade, enfim. Nada de fictícias “centenas de milhares”. É isso que falta para Marconi. Adaptar-se à sua realidade de político largado na planície, mas proativo a ponto de usar a sua extensa experiência executiva para dar uma contribuição para o dia a dia das goianas e dos goianos. Não inventar likes nas redes sociais ou agredir antagonistas em nível rasteiro e pessoal, porém um assumir um debate construtivo. Seria muito mais produtivo e, quem sabe, poderia trazer uma viabilidade para uma liderança que, apesar das adversidades eleitorais, precisa desesperadamente atestar que está viva. Mas não é o que se vê.